Com o estabelecimento e proliferação dos bancos centrais modernos ao longo do século XX as moedas nacionais passaram ao controle total dos estados. Ou seja, se tornaram dinheiro centralizado. Os estados definem o material utilizado na cunhagem, modos e limites de transferência, impostos sobre movimentação e até, em casos mais extremos, o valor relativo a alguns produtos (tabelamento de preços).
Com todo esse poder em mãos vários governos ao longo do século passado, e até hoje, vem abusando do poder de emitir moeda e controlar sua circulação, levando a destruição do poder de compra da moeda local ao mesmo tempo que dificulta fuga para moedas melhores. O refúgio contra esse problema tem sido, a milênios, o ouro. O ouro é durável, não pode ser inflacionado como as moedas nacionais e é aceito em praticamente todo o mundo como meio de troca. O ouro, porém, tem algumas desvantagens quando comparado aos meios de pagamentos atuais: sua subdivisão é limitada, sua custódia, transporte e segurança são mais caros e complicados.
Uma solução que combinasse a estabilidade e durabilidade do ouro com a velocidade, praticidade e segurança dos sistemas de pagamentos/transferências eletrônicos atuais era necessária. Essa solução seria apresentada ao mundo em Janeiro 2009 com a disponibilização do código fonte da primeira blockchain decentralizada: Bitcoin. Antes da Bitcoin algumas tentativas de dinheiro digital havia ocorrido, mas esbarravam sempre em algum problema técnico. A Bitcoin foi a primeira a superar esses obstáculos unindo várias tecnologias desenvolvidas desde os anos 80, como redes P2P, assinatura criptográfica por curvas elipticas (ECDSA), SHA-2 e árvore de Merkle.
Em termos simples Bitcoin é uma grande rede P2P de nodos que compartilham uma grande cadeia de blocos de milhares transações de bitcoins (a criptomoeda da rede), chamada blockchain, onde alguns desses nodos (conhecidos como mineradores) disputam o direito de registrar um novo bloco de transações na blockchain. A disputa se dá pelo intenso uso de poder computacional na busca de um valor numérico, o primeiro minerador que descobrir esse valor tem o direito de registrar o novo bloco e recebe uma recompensa em bitcoins. Esse mecanismo, chamado de proof of work, é o meio pelo qual os nodos chegam a um consenso sobre a blockchain. A blockchain funciona como um grande livro caixa compartilhado por todos os nodos onde são registradas todas as transações válidas.
A adoção do Bitcoin vem crescendo desde sua adoção mas ainda não alcançou o status de meio de pagamento global amplamente aceito e utilizado. Nesse meio tempo outros projetos de blockchain surgiram, dos quais se destaca a Ethereum. Lançada em 2015 o projeto da Ethereum tem como um de seus objetivos principais ser um ambiente para desenvolvimento e execução de software descentralizado. Ethereum e Bitcoin são diferentes em vários pontos sendo um dos principais o mecanismo de consenso: Ethereum usa proof of stake. Usando a blockchain da Ethereum como base várias outros projetos de cripto, conhecidos como tokens, surgiram.
Um tipo de token vem ganhando espaço no mercado de cripto e adoção rápida como meio de pagamento em várias partes de mundo: as stablecoins. Uma stablecoin é um token cujo valor é apegado ao valor de algum outro ativo. Por exemplo, uma unidade de stalecoin de dolar americano tem valor, quase constante, de um dólar americano. O emissor da stablecoin alcança essa equivalência com depósitos em reserva de dólares e de ativos como Trasuries americanos. Cada unidade da stablecoin emitida tem de ter ao menos uma unidade de dolar depositada em reservas. A ideia é simples mas genial. Ao apegar o valor da stablecoin ao valor do ativo correspondente a stablecoin ganha estabilidade de preço e, no caso do dolar americano, passa a equivaler a um meio de pagamento amplamente aceito e utilizado no mundo. Essa tecnologia tem dado acesso aos indivíduos em países com moedas frágeis a uma moeda forte de maneira rápida, simples e barata.